sábado, 19 de maio de 2018

Associação pede mais flexibilidade no ensino de alunos sobredotados

A nova lei da Educação Especial que esteve em discussão pública, e que deverá ser em breve aprovada em Conselho de Ministros, deve contemplar medidas pensadas para os alunos sobredotados, defende a Associação Nacional para o Estudo e a Intervenção na Sobredotação (ANEIS), que entregou uma proposta à Direção-Geral de Educação (DGE) nesse sentido. Deve haver mais flexibilidade: “Estes alunos podem trabalhar as matérias de outra maneira, com projetos, com outras disciplinas”, diz o presidente da instituição, Alberto Rocha. Mais: “Um professor que veja um aluno do 7.º ano com excelente desempenho a Matemática, por exemplo” deve poder “levá-lo a assistir a uma aula do 8.º ou até do 9.º para ele continuar motivado para aprender”.

Alberto Rocha acredita que a nova lei pode ser publicada antes do começo do próximo ano letivo, incluindo as reivindicações expressas no parecer que fez chegar à DGE no âmbito da discussão pública. “Pedimos que estes alunos com talento fossem especificamente mencionados na nova legislação. É importante a menção dos alunos com sobredotação e talento.”

Trata-se de “um decreto-lei para a inclusão, não para um grupo específico, mas os alunos com talento, assim como, por exemplo, aos alunos com hiperatividade ou défice de atenção devem ser mencionados”, prossegue o investigador do Centro de Investigação em Educação, da Universidade do Minho. “Quando não há menção, a lei é genérica. Algumas escolas aplicam medidas, outras não e alguns alunos saem prejudicados.”

Outro dos pedidos da associação é que alunos sobredotados possam trabalhar com base em projetos, em substituição do formato tradicional de ensino. “A aprendizagem pode ser mais interessante quando se trabalha por projecto”, justifica Alberto Rocha.

A legislação portuguesa garante aos alunos de aprendizagem excecional a aceleração do progresso escolar. Segundo o artigo 28.º, do Despacho Normativo n.º 1-F/2016, tais alunos podem concluir o 1.º ciclo do ensino básico em três anos e transitar um ano letivo no 2.º e no 3.º ciclo por uma vez, sem concluir o ano anterior. O documento prevê ainda, no artigo 32.º, a “constituição temporária de grupos de alunos em função das suas necessidades ou potencialidades”.

A associação sublinha a importância da formação de psicólogos escolares no domínio da sobredotação e das altas capacidades. Alberto Rocha considera, aliás, que a formação de professores e de diretores de escolas com vista a um “projeto conjunto de atendimento às altas capacidades” pode ser ainda mais importante do que o próprio enquadramento legal da matéria.

Preparar as crianças para o futuro

Por muito que os “saltos de classe” possam ser um contributo positivo para os alunos sobredotados, a sua adaptação às aulas depende muito da sensibilidade dos professores, diz Lúcia Miranda, uma das oradoras convidadas para o 13.º Congresso Internacional da ANEIS, que começou na quinta-feira e termina neste sábado, no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga.

A especialista em psicologia da educação, da Universidade da Madeira, considera necessário garantir aos docentes uma formação que lhes permita modificar as práticas pedagógicas e promover junto dos alunos um bem-estar não só cognitivo, mas também afetivo e emocional. “A preocupação será sempre o bem-estar das crianças e prepará-las para que, no futuro, elas sejam uma mais-valia para a sociedade.”

A investigadora refere ainda que os docentes estão mais sensíveis para a sobredotação, comparativamente com o que acontecia há cerca de 20 anos, quando começou a trabalhar na área. E que há cada vez mais trabalhos de investigação a contribuir para desmistificar alguns mitos em torno do assunto, como o das alegadas dificuldades sociais em relação a outros alunos. “Sabemos da literatura que essas crianças não são diferentes do ponto de vista socioemocional de uma outra criança qualquer. Podem é não ter as suas necessidades satisfeitas, descompensar e apresentar problemas socioemocionais”, explica.

Alto rendimento vs sobredotação

Um dos temas do congresso “Altas capacidades, talento e alto rendimento” é a discussão dos limites do conceito de sobredotação. Quais são as diferenças entre um estudante sobredotado e um estudante de alto rendimento? É o alto rendimento uma dimensão da sobredotação ou um universo separado? “São questões polémicas. Espero também que elas sejam debatidas, para que se possa pensar em medidas alternativas tanto para uma situação como para outra”, afirma a professora da Universidade da Madeira.

A categorização destes dois tipos de alunos ainda não é consensual, embora haja algumas diferenças. Um aluno de alto rendimento, refere Lúcia Miranda, “tem uma boa memória, fixa e reproduz bem as coisas” e obtém pontuações altas nas provas académicas, mas um sobredotado, apesar de nem sempre conseguir boa pontuação nesses testes, é capaz de raciocínios mais sofisticados e, em certos casos, únicos para a resolução de problemas. “São alunos muito criativos, capazes de se colocarem na pele de um investigador e de resolver problemas de uma maneira que mais ninguém consegue fazer.”

Fonte: Público

sexta-feira, 18 de maio de 2018

WEBINAR DGE - «Ler para quê e porquê»

webinar “Ler para quê e porquê” tem como convidada a Dra. Teresa Calçada, Comissária do Plano Nacional de Leitura 2027.
Neste webinar reflete-se acerca da necessidade e das vantagens da leitura, por razões de conhecimento e ética, da importância de ler do ponto de vista pessoal e social e do entendimento da leitura como direito.
Fonte: DGE

quinta-feira, 17 de maio de 2018

“Um professor deve estar disponível para aprender com os seus alunos”

É professora há 12 anos e, denuncia o brilho intenso nos olhos, adora o que faz. Andria Zafirakou dá a disciplina de Artes e Têxteis numa zona pobre e turbulenta da cidade de Londres, onde lida com situações de grande carência económica, violência e desafios sociais profundos numa comunidade que junta uma diversidade étnica muito alargada e mais de 130 línguas faladas. O investimento pessoal que aplica nos seus alunos e a forma inspiradora como olha para a educação valeu-lhe a vitória no Global Teacher Prize 2018 – uma espécie de Nobel da Educação, que a estabeleceu como a actual melhor professora do mundo. Humilde, apaixonada e contagiante, Andria rejeita o protagonismo que pelo mundo inteiro lhe atribuem. Diz-se agradecida pela oportunidade de fazer parte do Global Teacher Prize, iniciativa que lhe permitiu aprender com tantos professores que, todos os dias, lutam para fazer o melhor pelos seus alunos. E, sobre os finalistas à edição portuguesa do Global Teacher Prize, que conheceu numa curta viagem a Lisboa, diz-se inspirada pela diversidade de percursos e pela boa energia que encontrou.

A Andria venceu o Global Teacher Prize e é, por isso, apelidada de “a melhor professora do mundo”. O que diria a todos os outros professores que, por todo o mundo, olham para o seu exemplo?
Sinceramente, não acho que eu seja a melhor professora do mundo. Aliás, penso que tal pessoa não existe, porque há imensa gente que, na educação, está a fazer trabalhos incríveis dentro das suas comunidades. O importante é salientar que, sim, eu fui nomeada porque houve quem me indicasse, mas há muitos outros professores que simplesmente não foram encontrados ou indicados pelos seus colegas, cujo trabalho é fantástico. É algo que faço sempre questão de lembrar porque é nisso que acredito.

Não existe, portanto, um único melhor professor, da mesma forma que não existe uma única melhor escola…
Exacto, cada comunidade é diferente e, acredito, cada professor faz o seu melhor pelos seus alunos, no sentido de os ver progredir e alcançar o sucesso educativo. É essa a nossa vocação enquanto professores, é para isso que alguém se torna professor. É uma profissão muito altruísta, nesse sentido, e é isso que a torna tão bela: nada do que um professor faz é concebido a pensar em si mesmo, mas a pensar nos outros.

É professora na Alperton Community Secondary School, na zona Oeste de Londres.
Sim, é uma escola que se localiza numa zona carenciada da cidade de Londres. Na nossa freguesia são faladas cerca de 150 línguas distintas e, apenas na nossa escola, estão identificadas 40 línguas diferentes. Os alunos da minha escola vêm de origens variadas e chegam à escola em estádios de aprendizagem escolar muito díspares. Por exemplo, na semana passada, entrevistei um aluno de 11 anos que veio da Índia e que não tem qualquer grau de escolaridade. Trata-se de uma escola que tem uma bela e ecléctica mistura de crianças e culturas.

Como é que se lida com uma turma de alunos com origens tão diferentes?
Julgo que essa é uma das coisas mais belas em ser-se professor, é nesses momentos que nos desafiamos a nós próprios. O que considero mais significativo de assinalar é que, na minha escola, não existe um determinado padrão de aluno que se possa dizer que é o “normal” – cada aluno é diferente à sua maneira e, numa mesma sala de aula, podem existir cerca de 20 nacionalidades diferentes. É uma espécie de Nações Unidas (risos). O que é verdadeiramente difícil é descobrir como comunicar com todos estes alunos, na medida em que o seu inglês pode não ser suficientemente avançado. Quanto a isso, tenho alguma sorte porque a minha disciplina – sou professora de Artes – permite-me ensinar exemplificando aos alunos aquilo que se pretende em cada exercício. Isto é particularmente poderoso quando se tem alunos que não falam inglês mas que manifestam elevada inteligência e que se percebe que, muito rapidamente, irão assimilar a língua. O que eles precisam mesmo é de crença e de encontrar algo que, de certo modo, os inspire. Fazer parte desse processo é um dos grandes benefícios do meu trabalho.

Se considera que as Artes são uma espécie de língua universal que lhe permite chegar a todos os alunos, como vê o facto de, tantas vezes, a sua disciplina não ser tratada como prioritária por quem define o currículo nacional e as políticas públicas de educação?
Sinto-me profundamente desiludida com isso, com essa mentalidade. Muita gente ainda não percebeu quão importante é a Arte em termos de transformação da vida, em termos de oferecer aos alunos competências essenciais de que necessitarão ao longo da sua vida. Por exemplo, competências como a curiosidade, como comunicação, como trabalho em equipa, como auto-expressão. Ou, ainda, como a criatividade, uma das competências cada vez mais relevantes nos locais de trabalho – os empregadores valorizam cada vez mais as pessoas que têm essa visão criativa, uma vez que esta é essencial para quem quer liderar nos mercados onde se insere. Se retirarmos as disciplinas artísticas do currículo, se não valorizarmos estas disciplinas, estaremos a prejudicar os nossos filhos e alunos, em especial no momento em que, à saída da escola, entrarem no mercado de trabalho. Não estou a sugerir que todos devem tornar-se actores, músicos ou artistas, não é esse o ponto. O ponto é valorizar o conjunto de competências que estas disciplinas desenvolvem nos alunos, incluindo até para a sua saúde mental. As Artes ajudam a encontrar uma paz emocional própria dos momentos criativos. As Artes dão-lhes instrumentos para que conheçam melhor a sua personalidade, para que definam o que gostam e o que não gostam, para que desenvolvam o seu processo de tomada de decisão. As disciplinas artísticas são, nessa medida, essenciais para a formação pessoal dos alunos.

Diria que, no caso dos alunos socialmente mais desfavorecidos (como os seus), as Artes têm um papel ainda mais importante?
Da minha experiência, constato que as disciplinas artísticas são aquelas com as quais esses alunos automaticamente se envolvem. Talvez porque produzem um ambiente de segurança onde os alunos sentem que se podem expressar livremente. E, para os professores, estas disciplinas permitem uma rápida identificação das preocupações dos alunos, através da sua expressão artística ou da música, que permite aos professores implementar estratégias para apoiar cada aluno nas suas necessidades.

Como um instrumento de diagnóstico?
Absolutamente.

Explicou há pouco que a sua escola se insere num contexto socialmente desfavorecido. No entanto, a sua escola é também uma das mais bem-sucedidas do país em termos de melhorias de desempenho dos alunos. O que faz a sua escola diferente de outras que, em contextos semelhantes, estão a falhar?
Sinceramente, não tenho uma resposta no que concerne as outras escolas. Quanto à minha escola, aquilo que a torna melhor, a meu ver, é o facto de não nos focarmos meramente na dimensão académica do desenvolvimento educativo dos alunos. Não somos uma fábrica, não temos a ambição de preparar em massa alunos para que consigam responder a questões de exame. A nossa abordagem é holística, queremos garantir um ambiente de aprendizagem que seja seguro para eles e, através desse ambiente, guiar os alunos no seu processo de formação enquanto indivíduos. Nós sabemos os problemas que existem fora dos portões da escola. Sabemos que, em casa, enfrentam grandes desafios e que muito do que testemunham e conhecem em contexto familiar é-lhes prejudicial. Várias vezes pensamos “meu Deus, as coisas com que este aluno de 11 anos tem de lidar em casa, é demasiado cedo para ter experiências deste tipo”. Portanto, o que fazemos na minha escola é criar um abrigo, um espaço seguro onde as crianças possam ser crianças, onde possam praticar desporto, onde possam canalizar a sua agressividade e as suas frustrações para as diversas actividades controladas que lhes oferecemos. E, nestes anos enquanto professora, reparei que, quanto mais abertos estiverem os portões da escola, melhor serviço à comunidade se presta – por exemplo, se a escola abrir às 6 horas da manhã, haverá alunos para receber, porque a comunidade percebe que aquele é um abrigo e um espaço seguro onde as crianças podem estar. Outra coisa que fazemos é garantir um pequeno-almoço na escola a todos os alunos. Sei que isto parece coisa pouca para algumas escolas, mas no caso dos nossos alunos não sabemos se eles jantaram na noite anterior (e é muito provável que não tenham jantado). Ou seja, tentamos fazer com que a nossa escola seja uma espécie de “casa fora-de-casa”, onde se garante a segurança, os estímulos educativos, os afectos, os apoios e onde se desafiam os alunos a estabelecer amizades e relações sociais saudáveis. No fundo, prepará-los enquanto indivíduos, para que possam posteriormente ter um impacto positivo na sociedade.

Ouvindo-a, torna-se claro que uma das apostas da sua escola passa pelo envolvimento dos pais dos alunos, algo particularmente exigente nos contextos sociais mais desfavorecidos. Como é que a sua escola estabelece essa “parceria” com os pais?
É efectivamente difícil gerar o envolvimento dos pais. Mas, da minha experiência, diria que uma das coisas que melhor resulta é o elogio.

Elogiar os alunos?
Sim. Ao longo dos anos, tenho verificado que quando os professores ligam sucessivamente para casa para reportar aspectos negativos dos alunos, os pais fecham-se. É fundamental que os pais sintam que os professores têm a missão de ajudar a família na formação dos seus filhos, isto é, que somos aliados e que todos temos o mesmo objectivo, que é dar a cada aluno os instrumentos para que ele seja bem-sucedido na sua vida. Quando, finalmente, uma família percebe isso, quando percebe que todos na escola têm como prioridade os interesses dos seus filhos, aí sim gera-se um maior envolvimento. Dito assim parece simples, mas é um processo muito difícil. Por exemplo, eu tive uma mãe a quem, há cinco anos, assinalei a minha preocupação em relação ao facto de o seu filho passar períodos longos a jogar videojogos e pedi-lhe que revisse o tempo de exposição aos videojogos que permitia ao seu filho. Na altura, essa mãe ficou bastante incomodada com a minha observação e reagiu bruscamente: “Você não tem que me dizer como é que eu educo os meus filhos”. Essa mesma mãe, com quem acabei por desenvolver uma boa relação, pediu-me ajuda na semana passada precisamente sobre esse mesmo assunto: o filho tem exames em breve e não consegue largar os videojogos, já está viciado e a mãe anda desesperada sem saber o que fazer. Claro que este é um caso extremo, mas ilustra a importância do estabelecimento desta relação de confiança entre os pais e a escola. Se os pais não se abrirem à escola, o percurso formativo dos seus filhos terá mais obstáculos, pelo QUE é efectivamente importante trazê-los a bordo desta viagem desde o início.

A Andria parece descrever uma profissão que a ocupa 24 horas por dia, dentro e fora da escola. É preciso esse compromisso para se desempenhar bem a profissão de professor?
Ser-se professor não é exactamente uma profissão. É o que digo sempre às pessoas: se quiserem ser professores, tenham em atenção que este não é um trabalho das 9 às 5. É um trabalho que consome, que é parte diária das conversas e dos passeios. Nunca se desliga o interruptor. Um professor está sempre a pensar, as suas tarefas nunca estão terminadas, os alunos precisam sempre de mais. E, de facto, há sempre algo mais que um professor pode fazer, nomeadamente para melhorar no seu trabalho. É assim que encaro as coisas: ser professor é, de certo modo, parte da minha vida e é para mim tão natural quanto andar ou respirar. É a minha identidade.

Diria que todos os professores são assim?
(hesitação) A maioria dos meus colegas, digo-o com pena, é assim. E digo que tenho pena que sejam assim porque me preocupo com o seu bem-estar. Eles nunca desligam e isso desgasta-os. Eu, que tenho sorte, tenho consciência dos limites, tenho apoio e construí mecanismos de defesa que me permitem gerir essa pressão, mas nem todos conseguem fazê-lo. Acresce, por exemplo, que em Inglaterra, neste momento, estamos a enfrentar um problema de desgaste rápido dos novos professores, pois muitos não aguentam mais do que três anos em funções. Diria que é uma das responsabilidades das escolas, garantir que os professores têm as condições adequadas para trabalhar.

Quando o debate das políticas de educação aborda os professores, um dos desafios está na constatação de que os professores não se sentem socialmente reconhecidos pelo seu trabalho. Também sente isso?
Sim, absolutamente. E nesse ponto reside, aliás, um dos grandes benefícios do Global Teacher Prize, e é fantástico saber que, com a sua primeira edição em Portugal, os professores portugueses também tirarão proveito disso: esta iniciativa aumenta a atenção pública para a qualidade do trabalho dos professores e eleva o seu estatuto social. Na prática, faz com que os professores se sintam mais alinhados com a nobreza da sua missão. Que missão é essa? Estamos a inspirar as gerações futuras, somos uma espécie de mentores para um mundo novo de oportunidades, estamos a inspirar vidas. E isso é grande, enorme mesmo. Por que razão pessoas com estas responsabilidades não se sentem reconhecidas na sociedade? Será pelo dinheiro? Eu falo com muitos professores e do que eles se queixam não é do dinheiro, mas sim da ausência de reconhecimento e apreço junto dos alunos, pais e comunidade. Não sei como é que esta afirmação soará em Portugal, mas acredito mesmo que toda a gente deveria olhar para esta questão com muita atenção. Toda a gente é mesmo toda a gente, governo incluído. A pior situação com que um país se pode confrontar é ter falta de professores bons, motivados, entusiasmados com o seu trabalho e disponíveis para partilhar a sua paixão com as suas turmas.

Se um ministro da Educação lhe perguntasse o que fazer para ter professores melhores e mais motivados, o que recomendaria?
Perguntar-lhe-ia de volta: como é que o Senhor Ministro está a investir no desenvolvimento dos seus professores? O que fez para os manter formados, com as competências necessárias, com o que é necessário para garantir que as suas práticas pedagógicas permitem dar resposta às necessidades dos seus alunos? O que fez para lhes dar espaço e tempo para que desenvolvam novas ideias, novas práticas, novos conceitos, ou simplesmente para que possam reflectir sobre a sua disciplina e trocar boas práticas com outros colegas do resto do país? Julgo que são estas as dimensões mais urgentes para intervenção das autoridades públicas.

Nesse domínio da qualidade dos professores, uma das medidas políticas geralmente mais discutida é a definição de critérios mais exigentes para o acesso à carreira docente, como acontece na Finlândia. Olhando para os seus colegas, diria que essa é uma questão relevante para a melhoria do sistema educativo?
Diria que há alguma verdade nisso, alguma selecção pode ser benéfica. Os professores que se percebe estarem na profissão por sentirem uma vocação, um certo chamamento para o ensino, são efectivamente os professores mais bem-sucedidos. Como disse há pouco, esta não é uma profissão das 9 às 5, não é um trabalho baseado na produção em que, saído do posto de trabalho, não há nada mais em que pensar. É muito mais do que isso. São os professores que têm maior relacionamento e compromisso pessoal com o sucesso dos seus alunos que conseguem extrair mais das crianças e levá-las mais longe no seu percurso educativo. E, meu Deus, não dá para fazer isto tudo sem se gostar de lidar com crianças! Reconheço que já vi professores que, manifestamente, entraram nesta carreira sem se dar conta da situação e do que ela exige. Dito isto, parece-me fulcral a existência de um excelente programa de formação de professores, que os prepare para a variedade de alunos, escolas, comunidades e desafios com que terão de lidar no exercício da profissão. A sua formação tem de os habilitar a exercer em qualquer contexto.

Todo o trabalho dentro de uma escola que funciona bem requer coordenação e uma liderança forte. Sendo a Andria uma das líderes da sua escola, como utiliza essas funções de direcção para desenvolver a sua escola?
As minhas funções permitem-me inspirar e guiar os outros professores. Considero-me muito sortuda, uma vez que as minhas responsabilidades de direcção estão associadas à área do desenvolvimento profissional dos professores. Por isso, sinto que é uma responsabilidade enorme, mas também um grande privilégio, porque me compete ajudar os professores a serem melhores, a dar aulas melhores e a melhor adaptar as práticas pedagógicas às necessidades dos alunos. É uma tarefa de liderança da maior importância. Afinal de contas, os professores são um recurso caro e precioso – não há recurso educativo mais valioso numa escola. Por isso, preocupo-me em garantir que os professores na minha escola têm a formação de que precisam, que há sistemas de apoio ao seu trabalho e que conseguem dar aulas de forma eficaz. Na minha opinião, estas questões são vitais para o sucesso de qualquer escola. Sei bem que, enquanto director de escola, a tentação é ter o foco apenas nos desempenhos e nos resultados. Mas acredito que é igualmente necessário saber quem são as pessoas com quem se trabalha e tratar delas, porque é também assim que se defende os interesses dos alunos.

Acredita, portanto, que a aposta na formação dos professores é estratégica numa escola?
Sim. Mas não é só a formação, é também a mentoria para ajudar os novos professores. Por exemplo, tenho uma colega que, actualmente, está a fazer o seu primeiro ano na nossa escola e que é também o seu primeiro ano a dar aulas. E, como se imagina, o início é sempre um pouco atribulado, porque há nervosismos, inexperiência, timidez. Então, organizámos uma mentoria, de modo a que ela tenha o apoio necessário de outros colegas, mas também para que possa ir visitar outras escolas para assimilar boas práticas. Além disso, filmei-a a dar aulas, para que ela possa rever e perceber onde deve melhorar. Ou seja, é mais do que a formação, há todo um conjunto de coisas que é possível fazer para ajudar os professores a melhorar. E, se me perguntar se estou a ter sucesso nisso, respondo com clareza: tenho a certeza que sim. Digo-o porque vejo professores que formei tornarem-se, hoje, líderes na minha escola ou noutras escolas onde agora trabalham. Sinto que os empoderei para que eles possam ser aquilo que desejam ser.

Com tanto investimento na formação, considera que a estabilidade do corpo docente na escola é fundamental para o seu sucesso?
Nem por isso. É minha convicção que, se investirmos no staff de professores, eles investirão em nós. Portanto, se houver professores que mudam de escola e têm novas oportunidades, isso é excelente, porque significa que tiveram acesso a promoções profissionais e que o seu trabalho foi reconhecido. Do ponto de vista de uma gestão inteligente, isto obriga a ter sempre alguém em vista e pronto para assumir as responsabilidades dos que saem, ou seja ter alguém já treinado e preparado para o exercício das funções que irá ocupar.

Regressando aos grandes debates da educação: hoje discute-se muito qual deve ser o foco da educação, isto é, se deve estar mais no conhecimento ou se deve estar mais no desenvolvimento de competências transversais. O que pensa sobre isto?
Acho que ambos são fundamentais e indispensáveis. Sem desenvolver as competências, deixa de ser possível aplicar o conhecimento, e sem o conhecimento as competências servem de pouco. Cada criança é diferente à sua maneira, cada uma aprende à sua maneira e cada uma terá as suas próprias opções de vida. Enquanto líder de uma escola, o importante é diversificar e dar aos alunos todas as opções possíveis, para que eles possam tomar as suas decisões, para que eles possam perceber quais são os seus pontos fortes. Pode-se ser excelente a Matemática, mas se a isso se juntar as Artes, um jovem ficará capacitado para pensar “fora da caixa” e de forma criativa, o que lhe abrirá horizontes – ele poderá então querer tornar-se um arquitecto ou conceber cenários, por exemplo. O objectivo deve ser dar aos miúdos todas as opções para que possam ser bem-sucedidos na sua vida.

Não é preciso escolher um dos lados.
Não é, de todo. E eu valorizo e aprecio imenso os líderes educativos que percebem que não pode ser tudo à volta da Ciência, da Tecnologia ou da Matemática. É igualmente necessário incluir as Artes e desenvolver outras competências.

O seu exemplo enquanto professora está a dar a volta ao mundo. O que gostaria que, do seu trabalho, inspirasse os outros professores?
(risos) Uma espécie de mensagem? Se eu tivesse uma mensagem, diria que seria algo deste género: assegurem-se que conseguem demonstrar aos vossos alunos o quão são apaixonados pela matéria da vossa disciplina. Porque, se não o fizerem, se não evidenciarem as possibilidades das Artes ou das Ciências, os alunos não se irão inspirar e não irão envolver-se realmente na aprendizagem da matéria. Diria mesmo aos professores: não tenham medo de ser criativos, de inovar, de ousarem de forma até um pouco radical dentro da sala de aula, porque serão essas as memórias que as crianças vão guardar, é isso que os irá inspirar ao longo da vida. E, já agora, acrescento ainda uma outra ideia: arranjem tempo para reflectir sobre o que estão a fazer. Isto é, não se coloquem na posição do hamster que corre e corre na roda da gaiola mas que não vai a lado nenhum. Não tenham medo de parar para pensar “será que isto resultou com os meus alunos, como será que posso fazer um pouco melhor?”. Nós, professores, não podemos nunca cair no ponto em que acreditamos saber tudo. Nós não sabemos tudo. Veja-se o óbvio: os miúdos de hoje são muito mais tecnológicos do que alguma vez nós seremos. Mas isso não nos deve intimidar, temos de abraçar essa vulnerabilidade, que é parte da nossa realidade, e desafiar os nossos alunos a ensinar-nos também aquilo que não sabemos. Julgo que essa é uma atitude muito bonita para um professor: não só ensinar, mas estar disponível para aprender com os seus alunos.

Fonte: Observador

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Iniciativa Legislativa de Cidadãos para recuperar Todo o Tempo de Serviço Docente


Embora fuja um pouco à temática deste blog mas por considerar importante a participação cívica e democrática na governança de um país, publica-se e apela-se ao envolvimento de todos nesta Iniciativa Legislativa de Cidadãos para recuperar Todo o Tempo de Serviço Docente.


As instruções sobre como o fazer estão disponíveis nos links abaixo.

Vamos em 11.307 assinaturas. Precisamos de 20.000 assinaturas!
Aqui:
Dica no registo: o número de eleitor não é obrigatório, mas, deve ser preenchido porque é pedido no momento da assinatura.
Depois do registo, o melhor é sair e voltar a entrar no site pelo link directo da iniciativa.

Instruções de como subscrever a Iniciativa em vídeo:

Instruções de como subscrever a Iniciativa nos seguintes blogs:
No blog Com Regras:
No blog O Meu Quintal:
No blog DeAr Lindo:

Candidaturas abertas para financiar projetos na área da Inclusão Digital

A Portugal Inovação Social tem, desde 9 de maio, candidaturas abertas para financiar projetos inovadores orientados para ganhos de eficiência na prestação de serviços públicos e na resolução de problemas sociais, nomeadamente na área da Inclusão Digital.

São 5 milhões de euros que ficaram disponíveis para apoiar - através de Títulos de Impacto Social - a realização de projetos de inovação social que deverão atuar nas áreas da Inclusão Digital, Proteção Social, Emprego, Justiça ou da Saúde.

Os Títulos de Impacto Social destinam-se a apoiar projetos inovadores que respondam a problemas sociais prioritários da competência da política pública, numa lógica de pagamento por resultados. O projeto é implementado por uma ou mais entidades privadas e financiado por um ou vários investidores sociais, propondo-se alcançar determinados resultados sociais mensuráveis, cujos indicadores e métricas devem ser previamente validados pela Entidade Pública responsável pela política setorial. Se os resultados contratualizados forem alcançados, os investidores sociais são integralmente reembolsados.

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., enquanto responsável por propor as ações necessárias à inclusão e literacia digital de cidadãos e organizações na Sociedade da Informação e do Conhecimento, é a Entidade Pública responsável pela validação prévia dos projetos na área da Inclusão Digital, pela emissão dos "Pareceres da entidade do setor público" e por integrar as parcerias nas candidaturas validadas.

O aviso estará aberto continuamente, até que seja esgotada a dotação de 5 milhões de euros.

Mais informações nos portais da Portugal Inovação Social e do Balcão2020.

Fonte: INR

terça-feira, 15 de maio de 2018

FALAMOS DA VERDADEIRA INCLUSÃO QUANDO CONSEGUIMOS TOMAR PARTE NA CONSTRUÇÃO DE PROJETOS DE VIDA

Segundo dados do Relatório Mundial sobre a Deficiência (OMS, 2011), o problema da integração das pessoas com deficiência é uma questão de Direitos Humanos, havendo a homologação pela Assembleia das Nações Unidas a 13 de dezembro de 2006, cujo objetivo é promover, proteger e garantir o usufruto pleno e igualitário de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por parte das pessoas com deficiência, promovendo, também, o respeito pela sua dignidade e reconhecendo na discriminação contra qualquer pessoas com base na deficiência em violação da dignidade e valor inerente à pessoa humana (Instituto Nacional de Reabilitação, 2011).

Também na Educação e Formação Profissional é comum estar associado um conjunto de barreiras e riscos de exclusão social para jovens com deficiência e/ou incapacidade. Além disso, revela-se drástico o aumento de jovens com perturbações mentais no campo da Formação Profissional. Isto representa um grande desafio para empregadores, formadores e professores que não têm o repertório adequado para tomar medidas ou o devido apoio para tal. Atualmente, os programas de educação e apoio nem sempre vão ao encontro dos requisitos específicos deste tipo de público, uma vez que acabam por ser enquadrados em categorias de deficiência genéricas.

A integração em Formação Profissional é um meio facilitador para a inclusão dos jovens que chegaram a um ponto onde as oportunidades e as respostas já não vão ao encontro das suas necessidades e expetativas, trabalhando durante o processo formativo competências profissionais, comportamentais, sociais e de cariz relacional, potenciando a sua vivência em sociedade.

O processo formativo promovido pela Fundação AFID garante a todos os que tomam parte a garantia à participação ativa em termos sociais, respeitando a individualidade de cada um, sejam elas de género, religião, étnicas, económicas, físicas, psicológicas, numa sociedade realmente inclusiva e igualitária na promoção de oportunidades, promovendo ao mesmo tempo uma mudança na mentalidade da sociedade, rumo a uma abertura face à diferença.

Desta forma, a todos os que recorrem ao serviço de Formação Profissional ao abrigo da Medida de Qualificação de Pessoas com Deficiência e Incapacidade na Fundação AFID Diferença, proporcionamos um serviço de Qualidade onde o Empowerment de cada um é a pedra basilar de todo o processo, auxiliando no desbravar sobre temáticas como o controle da sua própria vida, a participação na sua cidadania, e uma reflexão sobre a realidade da sua vida, promovendo a tomada de consciência da sua exclusão e falta de capacidade de decisão, identificar os recursos necessários que respondam às suas necessidades e orientar os formandos na tomada de decisão de forma assertiva.

Ao longo dos últimos três anos do grupo de formandos que terminaram a sua certificação na Fundação AFID Diferença, contamos com taxas de inclusão ativa acima dos 75%, mostrando-se uma meta bastante positivo, a grande maioria foram incluídos num pé de igualdade em termos contratuais, passando por um processo de selecção e recrutamento fora do regime especial.

Proporcionando um ambiente o mais seguro possível, pretendemos que os formandos adquiram os conhecimentos e as técnicas através da experimentação e repetição de tarefas. Sendo essa a principal razão para o curso ser maioritariamente prático. Fomentamos a autonomia e, acima de tudo, a constante superação de si mesmos, vencendo dificuldades e receios.

Recorrendo a um grande parceiro da proximidade, o IKEA de Alfragide, proporcionamos uma primeira experiência pré-profissionalizante. Na companhia do formador, e sob a sua orientação, os formandos são desfiados a cuidar, manter e repor as plantas que são vendidas na seção de plantas vivas desta loja.

O curso de Jardinagem e Manutenção de Espaços Verdes é adequado para formandos que gostem de estar ao ar livre, de realizar tarefas que exijam esforço físico e que não se importem de sujar as mãos na terra, nas plantas.

CASO DE SUCESSO: QUEREMOS APRESENTAR O J.

J era um jovem estudante com necessidades educativas especiais. Começou a frequentar a Fundação Afid com quinze anos de idade. A escola que acolhia o J propôs à Fundação Afid uma parceira para desenvolver uma atividade vocacional, um programa de treino pré-profissional, por um período de dois anos, uma vez por semana, J pode neste tempo experimentar as diferentes instalações e oficinas.

No seu plano individual foi identificada a facilidade com que o aluno aceitava a participação ativa nas tarefas propostas. Quando terminou a sua escolaridade obrigatória, J integrou de imediato o serviço de formação profissional na carpintaria.

No último ano de formação profissionalizante, enquadrou uma multinacional para fazer seu estágio, como trainee. Com essa experiência, J pôde solidificar o conhecimento e integrar o mercado de trabalho, sendo neste momento membro efectivo do staff da companhia que o tinha acolhido em estágio.

Na nossa opinião e experiência, todo o acompanhamento realizado ao longo dos anos que J esteve sob a nossa tutoria, contribui em grande parte para a sua integração numa vida ativa.

Falamos da verdadeira inclusão quando conseguimos tomar parte na construção de projetos de vida.

Fonte: lifestyle por indicação de Livresco

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Reposição da carga letiva da disciplina de Educação Física e a valorização do desporto escolar

Pela Resolução da Assembleia da República n.º 125/2018, recomenda-se ao Governo que:

1 - Promova a integração da disciplina de Educação Física nas escolas do 1.º ciclo do ensino básico e de educação pré-escolar, assegurando as condições necessárias para que seja efetivamente lecionada.

2 - Reponha a carga horária da disciplina de Educação Física nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e no ensino secundário.

3 - Avalie as consequências das alterações feitas pelo anterior Governo em relação à disciplina de Educação Física no ensino secundário.

4 - Valorize a Educação Física e o Desporto Escolar, garantindo a sua universalização e a existência de meios materiais e infraestruturas em todas as escolas adequados aos currículos de Educação Física, por forma a que nenhuma modalidade programática deixe de ser lecionada com a dignidade que merece, nomeadamente através da consideração das suas classificações para o cálculo da média de conclusão do ensino secundário e de acesso ao ensino superior.

domingo, 13 de maio de 2018

Nova lei [de educação especial] com calendário apertado para ser implementada

Pais e professores começam a ter dúvidas sobre a exequibilidade da introdução da nova lei da Educação Especial no próximo ano escolar, como era intenção do Governo. A um mês do final do ano letivo, o diploma ainda não foi aprovado em Conselho de Ministros e há várias mudanças que têm que ser preparadas, como a formação de professores e a constituição de novas equipas multidisciplinares.

“O que o Governo propõe não são simples mudanças na educação especial”, defende a dirigente da Fenprof Ana Simões: “É uma reformulação de todo o sistema educativo.” A lei da educação especial passará a ter o nome de regime legal para a inclusão escolar e, em teoria, as medidas do novo diploma aplicam-se a todos os alunos.

“Estas coisas não podem ser precipitadas", defende a mesma dirigente. O Ministério da Educação devia, por isso, “parar e rever a sua proposta”, abdicando de implementá-la no próximo ano letivo.

O novo regime exige a introdução de “uma mentalidade nova nas escolas” e isso necessita de tempo, acrescenta a presidente da associação Pais em Rede, Luísa Beltrão: “Quanto mais depressa for aprovada a lei, mais rapidamente se pode começar a criar essas condições".

Só Fenprof quer adiar

A Fenprof é, porém, o único organismo a defender o adiamento da reforma. "Seria uma solução muito complexa. O documento perderia o impacto", discorda o presidente da Associação Nacional de Docentes de Educação Especial Pró-Inclusão, David Rodrigues, numa posição que é secundada pelo presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima.

Ainda assim, Rodrigues – que é também membro do Conselho Nacional de Educação – concorda que a implementação das mudanças está a ficar "um pouco em cima do próximo ano letivo" e que o Ministério da Educação devia começar desde já a promover ações de sensibilização "muito pragmáticas" para que as adaptações necessárias possam iniciar-se no princípio do novo ano letivo e estar "a todo o vapor" no segundo semestre das aulas.

É “preciso tempo” para trabalhar as mudanças propostas pelo Governo, corrobora Filinto Lima, mas diretores e professores “já estão habituados a implementar lei com timings apertados”, sustenta.

O gabinete de Tiago Brandão Rodrigues não esclarece se o Governo mantém a intenção de implementar o novo regime no próximo ano letivo. (...) a única resposta dada pela tutela é que o documento “está em processo legislativo”.

A versão final da lei foi enviada para a Assembleia Legislativa Regional dos Açores para análise no final do mês passado, o que faz antecipar que estará para breve a sua aprovação em Conselho de Ministros. Questionado sobre se já havia uma data para a aprovação definitiva do texto legislativo, o Ministério da Educação não respondeu,

Num parecer publicado em março, o Conselho das Escolas, o órgão que representa os diretores junto do Ministério da Educação, defendia que a nova legislação só poderá assegurar a “defesa dos interesses” dos alunos se for precedido ou acompanhado “de um plano de formação para o pessoal docente e não docente”.

A última versão conhecida da lei prevê também a criação de equipas multidisciplinares de apoio à educação inclusiva – que incluem cinco docentes e um técnico – cuja constituição precisa também de tempo para ser concretizada.

O Conselho Nacional de Educação recomenda, num parecer divulgado na sexta-feira, que sejam atribuídas horas de componente letiva aos membros da equipa multidisciplinar, e que haja “um reforço adequado nas escolas de recursos humanos, materiais e organizacionais” para que a lei possa ser implementada.

Número tem aumentado

As ideias que estavam na base da primeira proposta apresentada pelo Governo foram apresentadas às escolas no início do ano letivo por técnicos da Direção-Geral de Educação. Nas últimas semanas, decorreram também em várias regiões do país, sessões de “formações para formadores”, que deverão ser responsáveis pela preparação dos professores para o novo modelo.

A solução causou estranheza junto das escolas, por não estar ainda aprovada a versão final da lei. Os diretores queixam-se também da demora na marcação de sessões de esclarecimento sobre a nova lei. “Pedimos à DGE que nos viesse cá explicar as mudanças”, conta Filinto Lima. A reunião na escola que dirige, Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, está marcada para 4 de julho, dentro de quase dois meses.

O novo modelo prevê que os alunos com Necessidades Educativas Especiais deixem de ter que passar por uma avaliação médica anual – Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIFIS), uma metodologia da Organização Mundial de Saúde que avalia o grau de incapacidade de uma pessoa – para medir os seus progressos na escola. Os critérios clínicos deixam de ter a preponderância que têm na atual lei, alargando-se, em teoria, a todos os estudantes e não apenas aos que têm necessidades permanentes.

As mudanças na educação especial faziam parte do Programa do Governo e, logo no início da Legislatura, foi criado um grupo de trabalho para rever a atual lei – que data de 2008 e tem sido alvo de várias críticas. Esse trabalho foi terminado há cerca de um ano e a discussão pública da proposta de diploma lançada em julho de 2017.

De acordo com os dados mais recentes, o número de alunos do ensino básico e secundário com Necessidades Educativas Especiais tem vindo a aumentar, fixando-se em 87.081, em 2017/2018, segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.

Fonte: Público

sábado, 12 de maio de 2018

A Educação não é uma ilha

O estudo publicado recentemente pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre a Desigualdade em Portugal – publicação feita no seguimento de outras iniciativas de grande oportunidade e interesse – confronta-nos com realidades muito chocantes do nosso país. Vale a pena ganhar algum tempo a consultar estes dados. De todos eles realçaria três: 2,4 milhões de portugueses (cerca de um quarto!) vivem às portas da pobreza; o coeficiente de Gini (um índice que atribui um valor à desigualdade) é maior em Portugal do que nos países da Europa e nos países da Comunidade Europeia e que este coeficiente apesar de ter progredido discretamente nos últimos anos não atingiu ainda o valor mais positivo que se verificou antes da crise económica de 2009/2014. O estudo lembra ainda que, se os 10% mais ricos dos portugueses perderam com a crise 13% do seu rendimento, os 10% mais pobres perderam em contrapartida 25%. Num tempo em que a economia apresenta indícios animadores de recuperação e até de promessas de prosperidade, estes números vêm-nos lembrar a dimensão do que nos falta ainda caminhar para podermos não só ser tão prósperos como os nossos parceiros europeus, mas ser, pelo menos, tão menos pobres e tão menos desiguais.

Conhecemos os argumentos (que muitas vezes usamos) que “isto é um processo”, que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, que “estamos no caminho certo”. Mas os dados deste estudo levantam uma questão antiga e recorrente que é a de sabermos qual o lugar, qual o papel que podemos assumir no nosso continente e no mundo. A endémica pobreza e a enorme desigualdade são realidades que têm resistido a políticas e ciclos diferentes e que não nos auguram nada de bom. Claro que podemos advogar que – “nesta fase em particular” – as coisas melhoraram, mas o certo é que nunca melhoraram para podermos sequer ficar junto da média dos países que são nossos parceiros políticos e geoestratégicos.

Quando se pensa no que é possível fazer para acelerar a diminuição destes índices de pobreza, exclusão e desigualdade, quase sempre se perfila no pelotão da frente das prioridades a Educação. Seria a Educação que constituiria uma alavanca poderosa que permitisse atalhar estas tristes realidades. E é verdade: dispomos de dados que nos fazem crer que sim; uma pessoa com melhor nível de educação tem menos possibilidades de ser fustigada pela pobreza, pela exclusão e pode, desta forma, escapar a um destino de injustiça social. É certo que sim. Mas hoje, as pessoas que se dedicam ao estudo da Educação – informando-se e investigando sistematicamente – sabem que falar de Educação “em geral” sem se precisar do que se fala, pode ser um discurso oco e inútil.

E aqui se levanta a questão de saber como deve ser, como se deve constituir a Educação que pode alavancar, que pode contribuir para que Portugal deixe de estar em posições tão dececionantes no combate contra a pobreza, contra a desigualdade e contra a exclusão. Valeria a pena discutir longamente e extensamente este assunto e é para esta discussão que deixo três contribuições.

Precisamos antes de mais de uma Educação com recursos. Talvez se possa fazer mais com os recursos que temos, mas certamente não podemos fazer o que precisamos só com os recursos que temos. O apoio nas escolas aos alunos com dificuldades continua a ser muito insuficiente e se percentagens muito elevadas de reprovações – como as que temos e somos quase recordistas europeus – são certamente a expressão da falta de apoio que para muitos alunos é essencial para poderem ter sucesso na escola. E insucesso na escola é um forte preditor de exclusão, de desigualdade. Se deixarmos algum aluno para trás na escola, estamos a ser ineficazes com os números das desigualdades. Porquê? Porque os países menos desiguais e com menos exclusão social têm contado com o efeito positivo de menores taxas de insucesso escolar. (É óbvio que o que diminui a desigualdade é a boa aprendizagem e não uma política de “passar todos”). Mais meios para a Educação: turmas mais pequenas, mais professores de áreas não letivas na escola, mais técnicos a apoiar o trabalho docente, mais tempo para os professores se formarem e se prepararem, mais equipamento que permita um ensino laboratorial. (Na passada semana ao estudar com uma jovem as propriedades do som descobri que havia no manual muitas e criativas atividades sobre o tema. Perguntei: “Quais destas experiências fizeste?” Resposta: “A minha professora mostrou-nos um diapasão!”)

Precisamos de uma educação mais inovadora. A inovação na escola tem de ser incentivada, acarinhada, reconhecida e recompensada. Conhecemos hoje que a inovação não é um ato isolado, esporádico e inconsequente. As escolas que têm desenvolvido projetos de inovação - e são muitas - criaram uma lógica e um impulso de mudança que atrai outros fatores que galvanizam a possibilidade de inovação: o trabalho cooperativo a reflexão sobre práticas, o estabelecimento de parcerias. A frase estafada “se fizermos o que temos feito até agora, vamos conseguir exatamente o mesmo que conseguimos até agora” aplica-se aqui plenamente. A inovação é fundamental para ajudar a quebrar este círculo de pobreza e desigualdade.

Por fim precisamos de uma escola mais eficiente. Continuamos a confrontar-nos com problemas que agravam fortemente as injustiças educacionais. Dou um exemplo sobre as políticas de contratação de professores. Há alunos nas escolas públicas que passam meses e meses sem professores a algumas disciplinas; numa escola privada, isso resolve-se em dias ou numa semana. E o problema é que as aulas para os alunos da escola pública são provavelmente mais decisivas para os tirar do ciclo da exclusão do que as aulas em escolas privadas. Poder-se-iam juntar muito mais exemplos, mas entende-se como é que uma escola ineficiente ou chumbada de burocracia origina e agrava a desigualdade, a pobreza e a exclusão.

Endémicas ou não, as desigualdades têm de ser atacadas na sociedade e na Educação, como sendo uma fase do caminho, algo que pode e tem de ser melhorado e ultrapassado. É este o espírito positivo e realista que nos trouxe até aqui e nos vai levar mais longe. Eu acho.

David Rodrigues

Presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial; Conselheiro Nacional de Educação

Fonte: Público

CNE considera positivas alterações à educação inclusiva

O Conselho Nacional de Educação (CNE) vê como positivo um projeto de Decreto-Lei sobre educação inclusiva, mas recomenda um reforço de recursos humanos nas escolas e turmas mais pequenas quando tenham alunos com necessidades especificas.

O Ministério da Educação remeteu ao CNE, para emissão de parecer, um projeto de decreto-lei que procede à revisão do regime jurídico da educação inclusiva no âmbito da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário. A CNE pronunciou-se em abril mas só divulgou o parecer esta sexta-feira.

O projeto do Governo prevê medidas de suporte à aprendizagem em três níveis de intervenção, responsabiliza mais as escolas, envolve mais os pais e admite a intervenção da administração educativa e instituições como as ligadas ao emprego, segurança social ou saúde. E cria a equipa multidisciplinar de apoio à educação inclusiva e o centro de apoio à aprendizagem.

No entender do CNE o projeto de decreto-lei “espelha avanços conceptuais” sobre educação inclusiva, e a criação dos centros de apoio à aprendizagem “é vista como algo de muito positivo e promissor” no contexto dos “recursos específicos de apoio à aprendizagem e à inclusão”.

“Saúda-se a possibilidade de adaptação dos processos de avaliação”, diz-se também no parecer, no qual se recomenda que “o Governo recolha dados que permitam dispor de um perfil de competências e de atuação dos professores de Educação Especial na perspetiva da Educação Inclusiva”.

O CNE recomenda que sejam atribuídas horas de componente letiva aos membros da equipa multidisciplinar, e que haja “um reforço adequado nas escolas de recursos humanos, materiais e organizacionais”.

O funcionamento de turmas com alunos que estejam abrangidos por “medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão” pode claramente beneficiar de uma redução de alunos, facilitando uma atenção mais personalizada. “Desta forma, recomenda-se que, sempre que necessário, e sem necessidade de autorização superior, estas turmas possam ser constituídas”, diz também o CNE.

A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) e a Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) já manifestaram preocupações com as alterações previstas no projeto do Governo, que admitem possam não resolver os problemas de inclusão de alunos com necessidades educativas especiais e antes levar ao seu afastamento.

A Federação Nacional da Educação (FNE) defendeu mais recursos materiais para a concretização dos princípios da nova lei. Segundo a FNE o novo diploma foca-se nas diferenças dos alunos de forma geral, pelo que pode deixar alunos sem respostas especificas, e não valoriza o papel do professor de educação especial, redistribuindo esse papel por todos os professores.

Fonte: Público por indicação de Livresco