domingo, 23 de abril de 2017

Lenine Cunha eleito melhor atleta do mundo com deficiência intelectual

O paralímpico português Lenine Cunha foi eleito melhor atleta mundial da Federação Internacional para Atletas com Deficiência Intelectual (INAS), numa gala que decorreu em Brisbane, na Austrália.

"Estou muito satisfeito, não foi à primeira, foi à segunda. Os concorrentes deste ano até eram um bocadinho mais fortes", disse (...) o atleta, que em 2015 perdeu o prémio para o nadador Wai Lok Tang, de Hong Kong.

Lenine Cunha, de 34 anos, admitiu estar "quase em final de carreira", mas garantiu que ainda quer estar presente "nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, em 2020".

O atleta, que alcançou o bronze no salto em comprimento nos Jogos Londres 2012, assumiu que o seu principal objectivo é "chegar às 200 medalhas em 2018".

Lenine Cunha, que teve uma meningite aos quatro anos, é detentor de 188 medalhas internacionais, conquistadas em campeonatos da Europa, do Mundo e em Jogos Paralímpicos.

O atleta "partilhou" o prémio conseguido neste sábado com José Costa Pereira, seu treinador há 18 anos: "Sem ele, eu não conseguiria ser o que sou hoje".

Lenine Cunha, que em 2015 criou o seu próprio clube, com o objetivo de ajudar jovens a iniciarem ou prosseguirem carreiras desportivas, assumiu estar a atravessar uma fase difícil em termos de apoios. "Nos últimos tempos, perdi três patrocinadores grandes", referiu, admitindo que essas dificuldades já estão causar-lhe transtornos na vida pessoal.

Fonte: Público

Autismo: o que é e o que não é

Continua a ser para a maioria das pessoas uma doença desconhecida, envolta em mistério e sobre a qual muitos mitos persistem.

O autismo continua a ser para a maioria das pessoas uma doença desconhecida e envolta em mistério. Inevitavelmente, são muitos os mitos que persistem no imaginário colectivo relativamente ao autismo. O autismo é exclusivamente uma doença da infância? O autismo resulta da frieza afectiva das mães? O autismo pode ser provocado pela vacinação? As pessoas com autismo são frias, desprovidas de afectos e indiferentes aos sentimentos dos outros?

Autismo ou autismos?
O autismo afecta cerca de 1% da população mundial e é 5 a 10 vezes mais frequente em rapazes do que em raparigas. É uma perturbação do neurodesenvolvimento, o que significa que está presente desde o nascimento, embora geralmente seja detetada entre os dois e os cinco anos de vida. O autismo persiste ao longo de toda a vida e pode até suceder que apenas seja diagnosticado na idade adulta. As manifestações principais são a dificuldade em estabelecer relações sociais recíprocas, os défices na capacidade de comunicar e a restrição de interesses com sobreenvolvimento em atividades repetitivas. Estas manifestações nucleares podem surgir associadas a uma grande variedade de outras características clínicas. Alguns indivíduos nunca desenvolvem linguagem e apresentam um atraso importante do desenvolvimento cognitivo, enquanto outros apresentam uma linguagem precocemente sofisticada e uma capacidade intelectual fora do comum. Por essa razão os especialistas preferem hoje falar de perturbações do espetro do autismo e não de autismo como uma entidade única e uniforme.

O que causa e o que não causa autismo?
O autismo resulta de uma perturbação do normal desenvolvimento do cérebro. Os mecanismos neurobiológicos que o originam são ainda em grande parte desconhecidos. Contudo, sabemos que os factores genéticos têm um peso crucial. São múltiplos os genes envolvidos e, excepto numa minoria de casos, a presença de apenas um gene de risco não é suficiente para fazer surgir a doença. Além dos fatores genéticos, estão também envolvidos fatores ambientais, como por exemplo acidentes obstétricos, infeções in utero ou exposição pré-natal a substâncias tóxicas.

Curiosamente, a procura da origem do autismo alimentou algumas das mais tristemente célebres fraudes científicas da História da Medicina. Uma das mais perniciosas pelo alcance das suas consequências foram os escritos de Bruno Bettelheim, autor da ideia de que o autismo resultava da indisponibilidade afetiva das mães, as célebres mães-frigorífico. Mais tarde desmascarado como um impostor que inventou praticamente tudo o que escreveu, Bettelheim veio a suicidar-se, embora o mito prevaleça até hoje e contribua para a recriminação injusta de muitas mães e pais de crianças com autismo. Uma outra fraude célebre relacionada com autismo é o estudo que relatou uma associação entre a vacina do sarampo e o autismo. Assente em dados inteiramente inventados, este estudo foi oficialmente apagado pela revista científica que o publicou e o autor do estudo foi impedido de exercer medicina no Reino Unido. Estudos sérios e de grande dimensão conduzidos posteriormente não encontraram qualquer associação entre autismo e vacinação. Apesar disto, muitos pais continuam a preferir não vacinar os seus filhos por medo desta associação totalmente inventada.

O autismo tem tratamento?
Assim como há autismos e não autismo, não existe um tratamento único, mas sim inúmeras intervenções terapêuticas que se têm revelado úteis. Importa aqui esclarecer que não existe tratamento farmacológico ou biológico para o autismo. As intervenções psicoterapêuticas e reabilitativas que demonstraram alguma eficácia são muito variadas, contudo nenhuma se adapta a todos os casos e nenhuma consegue resolver todos os aspectos desta complexa doença. A abordagem ideal é multidisciplinar e adaptada às necessidades específicas de cada indivíduo e de cada uma das suas fases do desenvolvimento.

As pessoas com autismo não têm sentimentos?
Este é um mito muito comum sobre o autismo. As dificuldades de comunicação, o aparente desinteresse pelos outros, a mímica pobre, a postura rígida e a dificuldade em tolerar o contacto físico são frequentemente interpretados, erradamente, como sinal de frieza afectiva. Na realidade, as pessoas com autismo são extraordinariamente sensíveis ao afecto e à rejeição. Muitas pessoas com autismo procuram activamente estabelecer amizade com outros, mas são inábeis e ingénuos na sua abordagem. Ainda assim, muitos estabelecem relações amorosas, casam e têm filhos. Os afetos, a alegria e a tristeza estão presentes nas suas vidas e não são menos intensos do que nas vidas de todos nós, apenas se manifestam de uma forma diferente, original, e muitas vezes difícil de decifrar.

Bernardo Barahona Corrêa

Psiquiatra e director científico do CADIn

Fonte: Público

sábado, 22 de abril de 2017

Hiperatividade e Défice de Atenção: O problema estará nas crianças?

A nossa sociedade tem tendência para considerar patológicos comportamentos que não são socialmente aceites e, consequentemente, tratá-los como se fossem um problema médico suscetível de ser controlado por medicamentos.

Desde 2010 duplicaram em Portugal as vendas de medicamentos indicados para a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Será que isto não nos faz pensar? Será que a hiperatividade aumentou assim tanto entre as nossas crianças?

Se sim, temos de pensar o que levou a isso. É mais fácil para todos quando o problema está na criança. É mais fácil quando arranjamos um nome para algo que não percebemos. Principalmente, é mais fácil quando esse comportamento que ‘incomoda’ corresponde a uma doença e, se essa doença já tem um tratamento e este tratamento é um comprimido, mais fácil se torna. Identificado como problema médico individual, cuja causa estaria apenas na criança, dispensa confortavelmente questionar a família, a escola, os profissionais de saúde e/ou o meio social.

Há, não tenho dúvida, crianças que necessitam de tomar medicação, mas também para essas a medicação ajuda a controlar o comportamento não o modificando. Há, provavelmente, muitas outras que não necessitam e que são medicadas.

Não pondo em causa a Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) como entidade nosológica, ponho em causa muitos dos diagnósticos realizados e tratamentos recomendados.

Quando é diagnosticada PHDA numa criança e/ou num jovem, tanto este como os seus pais ou cuidadores deveriam ser adequadamente informados sobre que possibilidades de tratamento existem, quer tratamentos psicológicos, quer tratamento farmacológico e possíveis efeitos secundários deste último.

Programas de treino educacional para pais e cuidadores devem ser a primeira linha de tratamento para as crianças.

Quando é decidido o tratamento farmacológico é fundamental que este seja acompanhado por intervenções psicológicas, de modo a ajudar a criança a lidar com diferentes situações de modo mais adequado.

Mas é difícil aceitar que a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), cuja prevalência estimada se situa entre os 3 e 4%, resulte num volume gigantesco de vendas de medicamentos para PHDA prescritos a crianças até aos 14 anos.

Com base no conhecimento que dispomos e nos dados que existem, é portanto forçoso concluir que são hoje prescritos medicamentos que podem ter impacto negativo no desenvolvimento das nossas crianças e jovens, nomeadamente a nível psicológico.

Os psicólogos podem e devem colaborar no estabelecimento de medidas preventivas face ao surgimento dos problemas que muitas vezes redundam na medicação de crianças e jovens sem diagnóstico de PHDA e apenas com perturbações do comportamento que resultam normalmente de situações relacionais e de contexto (nomeadamente o “mau comportamento”, a irrequietude, o não respeito de regras, a falta de concentração, a falta de motivação).

A Ordem dos Psicólogos Portugueses não pode deixar de manifestar a sua apreensão com este sério problema que afeta a vida de crianças e famílias.

Deixo a questão: Será que o problema estará mesmo nas crianças?…

Isabel Trindade

Vice-Presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Fonte: Observador por indicação de Livresco

Fundão tem espaço de terapia sensorial e equipamentos para pessoas com deficiência

O Fundão dispõe a partir desta quarta-feira de um espaço de terapia sensorial e de dois equipamentos lúdicos destinados às crianças com necessidades especiais, que foram inaugurados pela secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência.

As novas estruturas resultam do projeto "Juntos por Pessoas Especiais", dinamizado pelo núcleo do Fundão da associação Pais em Rede em parceria com outras entidades locais e no âmbito do qual têm sido desenvolvidas acções de inclusão em comunidade.

O trabalho desenvolvido já levou à concretização da "Sala Sentires", um espaço de estimulação e terapia sensorial que fica na incubadora "A Praça" e que implicou um investimento de 15 mil euros, totalmente financiado pela segunda edição do programa "Mais para Todos" promovido pelo Lidl e SIC Esperança.

"É um espaço que está relacionado com a questão das terapias sensoriais e que se destina não só a pessoas com deficiência, mas também a outros que possam necessitar, tais como os mais idosos ou pessoas com demência", explicou Fernando Oliveira, coordenador do núcleo do Fundão da Pais em Rede.

Esta sala está equipada com tecnologia que permite a estimulação sensorial e a realização de vibroterapia e cromoterapia, e deverá contribuir acima de tudo para melhorar a qualidade de vida dos que precisam.

Nesta primeira fase, a utilização do espaço será feita através da solicitação, mas a associação já está a procurar soluções que permitam implementar um modelo para o funcionamento a tempo inteiro.

Pronto a fazer a diferença está também o parque lúdico "Todos A Brincar", que implicou um investimento de cerca de 50 mil euros co-financiado pelo programa "EDP Solidária" e pela Câmara do Fundão e que permitiu a instalação de um carrossel inclusivo e de um baloiço adaptado no Parque Verde da cidade.

Ambos com condições para pessoas com mobilidade reduzida, estes aparelhos ficam na zona de recreio destinada às crianças, constituindo assim um dos primeiros parques infantis com equipamentos inclusivos existentes no país, conforme sublinhou a secretária de Estado, Ana Sofia Antunes.

A governante vincou ainda a importância deste espaço no que concerne à inclusão das pessoas especiais, lembrando que quando o convívio social e o contacto com a diferença é feito desde cedo os processos de aceitação também são mais simples.

Lembrando que todos sem excepção fazem parte e têm o direito de ter espaço na comunidade, Ana Sofia Antunes defendeu que o trabalho pela inclusão deve começar pela integração das pessoas com deficiência nas escolas.

"O sítio destas crianças é de facto nas escolas regulares junto dos demais meninos e o mais possível nas turmas com as restantes crianças. Não queiramos criar - e contra isso me tenho batido - a escola segregada dentro da escola inclusiva", afirmou, deixando uma mensagem de confiança relativamente ao futuro.

Um processo de inclusão social que também está inscrito na agenda do executivo municipal, como vincou o presidente da Câmara Municipal do Fundão, Paulo Fernandes.

O autarca destacou como muito positivo o facto de estes projectos terem sido concretizados a partir de uma associação da sociedade civil e garantiu que a autarquia manterá a aposta na inclusão, nomeadamente com uma estratégia de sensibilização da comunidade e na continuidade dos planos para a redução de barreiras arquitetónicas e para a melhoria das acessibilidades dos equipamentos públicos.

"Ainda temos um trabalho ciclópico para retirar e diminuir todos os obstáculos urbanos, mas é um trabalho que temos como sistémico e continuará a ser desenvolvido, até mesmo para lá das obrigações legais", prometeu.

Durante esta cerimónia foi ainda apresentado o livro "Uma Mão Cheia de Histórias Especiais", que inclui histórias escritas por Fernanda Bastos e com ilustrações feitas por crianças do Agrupamento de Escolas Gardunha e Xisto e do Agrupamento de Escolas do Fundão.

Fonte: Público por indicação de Livresco

Redução do número de alunos por turma abrange 200 mil estudantes

A redução do número de alunos por turma, que avança no próximo ano letivo nos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), vai abranger 200 mil estudantes, disse esta quarta-feira o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues. 
"Trabalhamos já para que no próximo ano essa redução possa acontecer para números pré-2013", afirmou Tiago Brandão Rodrigues aos jornalistas, em Coimbra. 
Quase mil escolas "vão beneficiar desta redução do número de alunos por turma", algo que o ministro da Educação acredita ser "positivo também em todo o processo" de ensino e aprendizagem. 
"Os meios socioeconomicamente desfavoráveis têm na diminuição do número de alunos por turma uma consequência mais positiva", sublinhou. 
O ministro disse que o Governo pretende "que esta redução se possa estender a todos os agrupamentos" de escolas do país. 
No ano letivo de 2017-2018, "já é possível fazê-lo no início de ciclo nestas escolas que são uma prioridade", salientou o ministro da Educação, no final de uma visita à Escola Básica de Solum Sul, na área urbana de Coimbra, destinada a assinalar o arranque do terceiro período letivo. 
O programa TEIP é uma iniciativa governamental que abrange atualmente 137 agrupamentos e escolas não agrupadas localizados em "territórios económica e socialmente desfavorecidos, marcados pela pobreza e exclusão social, onde a violência, a indisciplina, o abandono e o insucesso escolar mais se manifestam". 
Os objetivos centrais do programa, são "a prevenção e redução do abandono escolar precoce e do absentismo, a redução da indisciplina e a promoção do sucesso educativo de todos os alunos", segundo a página da internet da Direção-Geral da Educação. 

Fonte: CM por indicação de Livresco

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Criança de dez anos com autismo algemada e detida

John Haygood, criança de dez anos com autismo, que frequenta a escola Okeechobee Achievement Acadamey, em Okeechobee, Flórida, EUA, foi algemado e detido na passada semana, após mau comportamento na sala de aula.

A mãe, Luanne Haygood, filmou tudo, e o vídeo tem sido reproduzido por vários meios de comunicação norte-americanos.

"Não sei o que se passa. Não percebeo", diz John, enquanto chora e é algemado e levado para o banco de trás do carro das autoridades.

"Desculpe, tem alguma papelada ou alguma coisa que me possa dizer", ouve-se a mãe da criança dizer aos agentes.

John foi detido na escola por ter agredido um professor, em outubro, com murros e pontapés, que deixaram marcas e arranhões. O incidente ocorreu após a criança, na sala de aula, ter atirado bolas de papel a vários colegas. Quando o professor lhe pediu para sair da aula, começaram as agressões, de acordo com um relatório do Xerife de Okeechobee.

À criança foram dadas "várias oportunidades para mudar o seu comportamento, o que ele não fez", diz também o relatório, de acordo com a CNN. John já havia ameaçado o professor de morte. Isto aconteceu em novembro e o professor falou em apresentar queixa na polícia.

O tipo de autismo de que John sofre pode levar a que o simples facto de alguém lhe tocar lhe cause sofrimento. Mudanças de rotina e a maneira como interagem, ou não, com os outros, também podem afetar os doentes.

John foi expulso da academia em outubro e tinha aulas em casa. Agora, ao voltar à escola para realizar um teste, o incidente aconteceu e foi detido, tendo já sido presente a tribunal. Acabou por passar a noite num centro de detenção juvenil.

Luanne, mãe de John, mostra-se revoltada por nunca ter visto nenhuma informação escrita, nem queixas. "Eu sei o que aconteceu há seis meses. Mas nunca vi mandados, nem queixas. Só sei o que foi dito: que o professor poderia ou não apresentar queixas", diz.

Recentemente, Luanne conseguiu os registos das atividades de John, mas teve de ser a criança a pedi-los às autoridades.

Fonte: DN

Alterar pedagogias e reformular métodos para acabar com os chumbos

Seis agrupamentos escolares têm “luz verde” a partir do próximo ano letivo, e por um período de três anos, para mudarem algumas regras estabelecidas e em prática no atual sistema de ensino. O Projeto-Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP), criado pela tutela, permite várias alterações. Redistribuir os conteúdos das disciplinas por ciclos, dividir turmas, criar áreas curriculares, ter dois e não três períodos no calendário escolar, diminuir o número de testes, apostar numa avaliação contínua e qualitativa, investir na inovação pedagógica. O objetivo maior é eliminar os chumbos de uma forma gradual. Portugal continua a ser um dos países da OCDE com mais alunos que já chumbaram pelo menos uma vez antes dos 15 anos. 

Pedro Cunha, subdiretor da Direção-Geral da Educação (DGE), entidade que coordena este projeto-piloto, explica o que se pretende em declarações ao semanário Expresso. “As escolas podem optar por fazer a sua gestão na distribuição dos tempos, dos programas, e das metas, desde que garantam que os alunos adquirem as competências previstas em cada final de ciclo. Ou podem criar áreas curriculares próprias”, adianta. 

Os agrupamentos escolares do Freixo em Ponte de Lima, do Cristelo em Paredes, da Marinha Grande Poente em Leiria, Fernando Casimiro Pereira da Silva em Rio Maior, de Vila Nova da Barquinha em Santarém, e de Boa Água em Sesimbra, todos com mais de 7500 alunos, são as estruturas selecionadas para testar as medidas pedagógicas e modelos de organização escolar diferentes do que estão a ser aplicados neste momento. Os seis agrupamentos terão liberdade e autonomia, mas todos os passos terão de ser devidamente fundamentados e caminharem no sentido da eliminação progressiva das retenções. 

“Não se trata de decretar a transição obrigatória dos alunos. Nem de decretar a erradicação da retenção. Trata-se de dar a estas escolas todas as opções de que precisem para agir preventivamente e assim eliminar, de forma progressiva, a retenção e o abandono escolar, garantindo que todos os alunos aprendem”, explica o responsável. 

Neste programa de autonomia reforçada, os agrupamentos selecionados podem definir e propor os projetos que considerem mais adequados para eliminar as retenções e estancar o abandono escolar. São escolas com problemas distintos, localizadas em meios urbanos e rurais, com taxas de insucesso diferentes. Os projetos que se revelarem eficazes poderão ser replicados noutros estabelecimentos de ensino. 

As realidades não são iguais e os seis agrupamentos podem propor vários caminhos e alternativas. Pedro Cunha dá um exemplo de reorganização de conteúdos, uma das matérias que as escolas escolhidas podem trabalhar. “Atualmente, a Revolução Industrial é tratada em várias disciplinas, em anos diferentes, em ciclos diferentes. Estas escolas podem condensar o tema num determinado momento e colocar várias disciplinas e trabalhá-lo de forma integrada, evitando repetições”, diz em declarações ao Expresso. 

As mexidas poderão estender-se à própria constituição das turmas. O subdiretor-geral admite que a atual configuração tem fragilidades. “A unidade turma é algo completamente burocrático. Nada nos diz que aquele grupo de alunos é o melhor possível e que deve trabalhar junto ao longo de todo um ano letivo ou de um ciclo. Se os alunos têm interesses e necessidades diferentes pode ser útil desconstruir essa organização e partir as turmas em vários grupos”, diz. 

O mesmo pode acontecer com o calendário escolar. “Há três períodos e, tipicamente, em cada um os alunos fazem dois testes. No final atribui-se uma nota. Mas é possível repensar esta avaliação e criar mais momentos de avaliação formativa ao longo do ano e não quantitativa”, refere Pedro Cunha.

Fonte: Educare

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Conselho Nacional de Educação: perfil do aluno implica mudança das práticas pedagógicas

O Conselho Nacional da Educação (CNE) considera que as implicações subjacentes ao Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, apresentado pelo Ministério da Educação em fevereiro, passam por mudanças na “organização do sistema educativo, nomeadamente ao nível do currículo”, mas também “das práticas pedagógicas”, o que pressupõe que haja “formação inicial e contínua dos professores”.

O parecer aprovado nesta quarta-feira, pela maioria dos conselheiros que compõem o órgão presidido pelo ex-ministro da Educação David Justino, não menciona a necessidade de uma revisão curricular, até porque realça a importância de consensos alargados para o sistema de ensino, e de “linhas de orientação” que não sejam alteradas quando muda o Governo. Porém, aponta a necessidade de “alterações curriculares e de funcionamento das escolas que se pretendem graduais, sustentadas e duradouras”.

Esse ponto é reforçado ao ser referido uma primeira vez no capítulo das “Implicações práticas” do chamado perfil do aluno, e novamente depois como uma das principais recomendações. No total são seis as recomendações.

“O perfil do aluno não implica o regresso das áreas curriculares não disciplinares, como a Formação Cívica ou a Área de Projeto ou ainda o Estudo Acompanhado. Implica sim, em nosso entender, uma gestão curricular diferente”, disse (...) Álvaro dos Santos, conselheiro e um dos relatores do parecer.

E isso significa por exemplo que “não haja uma divisão tão instituída entre as disciplinas”, explica. Para isso, mudam as práticas em sala de aula, e será esperada “uma forma de trabalhar muito mais colaborativa entre os professores”.

O parecer realça a importância e pertinência do documento que define quais as competências que os alunos devem ter no final de escolaridade obrigatória, bem como a sua utilidade, que dependerá de serem ou não criadas as condições para se tornar operacional, o que por sua vez implicará uma análise e debates futuros não apenas sobre a formação dos professores, mas também sobre a gestão curricular.

Os conselheiros referem especificamente a necessidade da “adoção de uma abordagem interdisciplinar, que não se coaduna com a prevalência de uma lógica disciplinar acentuada”. E reforçam a convicção de que aplicar “práticas pedagógicas e didáticas adequadas às finalidades enunciadas” no perfil do aluno não será possível sem “realizar um esforço para se encontrarem equilíbrios e condições formativas e organizacionais”.

Sugerem ainda que o perfil do aluno venha a constituir “o princípio da reversão” de uma tendência em que “as mudanças no sistema de ensino têm surgido “com avanços e recuos, sem tempo para consolidação”, já que “desafia todo o conjunto da nossa estrutura educacional, constituindo uma referência orientadora das políticas educativas.

Além de pertinente, importante e útil, se acompanhado das referidas alterações, o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória é qualificado pelo CNE como “um referencial estruturante para a educação escolar dos próximos anos”, num contexto em que “o alargamento recente da escolaridade obrigatória para 12 anos obriga a repensar as suas finalidades, o currículo e os processos de ensino e aprendizagem”.

20 de Março o CNE, também reunido em plenário, optou por retirar um parecer sobre o mesmo tema, levado à votação na altura. David Justino explicou então que o conselho não pretendia "tomar decisões precipitadas" e preferia reescrever o parecer depois de o tema ter gerado "muita discussão, feliz, e, de certa forma, muito profícua".

Fonte: Público

quarta-feira, 19 de abril de 2017

IV Jornadas Educativas "Pensar a Educação... 2017"


Uma vez mais, o Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Paiva organiza, em parceria com o Centro de Formação EduFor, as IV Jornadas Educativas "Pensar a Educação... 2017", nos dias 6 e 20 de maio de 2017, no Auditório Municipal Carlos Paredes, em Vila Nova de Paiva. Trata-se de uma oportunidade de analisar e discutir questões educativas e de procura de respostas pedagógicas para alguns problemas que vão surgindo nas escolas.
A frequência das Jornadas, nas condições de acreditação, reveste a forma de um curso de formação de 13 horas. No entanto, para aqueles que não pretendam o percurso de formação acreditada ou frequentem parcelarmente as sessões será emitido um certificado de participação.
As jornadas educativas destinatários a Educadores de Infância, Professores dos Ensinos Básico e Secundário e Educação Especial e a todos os interessados pelas questões educativas.
O período de inscrições decorre até 02/05/2017.
Para mais informações e inscrições consultar o EduFor.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"O autismo é uma forma de o mundo nos dizer que temos muito pouco sob controlo"

Extrato de entrevista a Valério Romão, escritor. Nasceu em 1974 em Clermont Ferrand, na França, e aos dez anos veio para Portugal, para Tavira, onde desatou a ler na biblioteca da Gulbenkian. Hoje já poderia ir para a Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, com que a cidade homenageia o seu heterónimo de Pessoa. Publicou há cinco anos o primeiro romance, Autismo, rapidamente esgotado, que no ano passado foi finalista do Prémio Femina em França. Chega agora às livrarias a segunda edição, enquanto ultima o romance que envolve a doença de Alzheimer, com o qual fechará a trilogia Paternidades Falhadas. Contista e dramaturgo, Valério Romão é licenciado em Filosofia e é informático, um tech geek.



No dia 3 de abril publicou uma crónica no Hoje Macau [jornal online]. Começa assim: "O dia de ontem, 2 de abril, é o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo. O meu filho tem treze anos e com apenas dois anos e meio foi diagnosticado com uma perturbação do espectro do autismo." Aqui é realmente a sua experiência e do seu filho. Ao escrever esta crónica dirigia-se às pessoas que não compreendem, que têm dificuldade em compreender? Porque foi difícil também para si?

Sim. No fundo, ou temos contacto com autistas ou, não o tendo, estamos condicionados pelo que vimos na cultura popular sobre a figura do autista. Normalmente aparece ligada, nos filmes, a figuras mais ou menos geniais mas com uma vida muito disfuncional porque são socialmente limitados, seguem rotinas muito estritas, têm problemas em ter empatia pelos outros e em receber empatia. E isso é muito pouco, relativamente ao espetro enormíssimo de sintomas e de problemas que o autismo abarca. Na revisão 4 do DSM, o manual de perturbações e de condições psiquiátricas - saiu a 5 há algum tempo - o autismo tinha cinco manifestações distintas, ou seja, tinha ainda cinco subclasses separadas, entre as quais o autismo e o Asperger que é a forma altamente funcional do autismo, com desenvolvimento de linguagem e uma vida a priori menos condicionada. Nesta versão 5, simplesmente tiraram essas fronteiras todas e passou a chamar-se perturbações do espetro do autismo, o que me parece mais lógico porque, dando-lhe esta unidade, permite que se abarque de uma forma mais consistente uma série de manifestações que às vezes têm pontos em comum e às vezes têm distâncias quilométricas em relação umas às outras. Eu estava preocupado precisamente...

... com o estereótipo Dustin Hoffman?
Sim, porque o meu contacto com o autismo foi o Rain Man. Eu achava que os autistas, não sendo todos geniais, todos eles eram aquela figura, em doses mais ou menos diferentes. A minha grande surpresa nos anos em que tenho vivido o autismo de perto é descobrir que existem tantos autismos como autistas, quase. Todos eles são muito diferentes, é um síndrome que, ainda que muito estudado, não está de modo algum compreendido. O diagnóstico é comportamental, não há nenhuma análise, de medição de laboratório que permita saber se uma pessoa é autista ou não.

E difícil de diagnosticar, uma vez que tem tanta variedade de manifestações?
Sim, a não ser que seja absolutamente evidente, que seja textbook. Além de o diagnóstico ser difícil, e ainda assim poderíamos partir do princípio de que poderia ser evidente, o prognóstico, esse sim, é muito complicado e é sempre muito condicionado. Os bons médicos que encontrei nesta área são muito reservados relativamente ao futuro da criança que está à frente deles, daqui a dez ou 15 anos. Não sabem, de facto, porque pode progredir espetacularmente, inclusivamente sair do espetro, como pode ficar igual ou mesmo regredir.

Portanto, à situação acresce a imprevisibilidade?
E conseguir aceitar que a imprevisibilidade faz parte da vida... nós gostamos de rotinas, de coisas certas, quando abrimos a porta gostamos de entrar em casa e não numa casa que não conhecemos. Há pessoas mais ou menos organizadas mas todas têm um roupeiro, gavetas para pôr a roupa, sítios onde guardam as coisas. Isso é uma espécie de domar a natural rebeldia do mundo que nos rodeia. Foi a primeira coisa que fizemos, tentar evitar as catástrofes naturais, as doenças, tentar domar esta coisa e torná-la habitável. O autismo e o prognóstico do autismo, sendo tão reservado, é a forma de o mundo nos dizer que não temos nada sob controlo, ou muito pouca coisa.

À imprevisibilidade que é ter um filho, acrescenta-se a imprevisibilidade do autismo?
No autismo tem-se dois filhos, há dois momentos: quando ele nasce e quando é diagnosticado. São dois momentos distintos.

Falou na qualidade dos médicos, encontrou médicos muito bons e também médicos que não compreenderam?
Encontrei médicos bons, médicos maus, médicos estúpidos, charlatães, encontrei de tudo um pouco. Como é comportamental e não pode ser testado e verificado em laboratório, é uma zona cinzenta onde muitas coisas se cruzam, da nutrição aos hábitos desportivos. Toda a gente tem uma palavra a dizer sobre isto e concorre para a salvação. Alguns muito bem-intencionados mas com muito poucos conhecimentos e uma grande dose de fezada, e outros com muitos conhecimentos mas pouca empatia. Apanha-se de tudo um pouco.

É preciso estar-se preparado para isso tudo?
Ninguém está. Vai-se preparando.

Ao fim de dez anos do diagnóstico feito, essa imprevisibilidade mantém-se?
Não tanto. A partir daqui há apenas mais um grande momento de definição, a adolescência. A partir da idade adulta, mais ou menos as coisas estão definidas. A infância é a parte mais difícil e ao mesmo tempo a que dá mais esperança, porque é quando tudo pode mudar. A partir da idade adulta, as coisas de certa forma cristalizam, porque o que adquiriu provavelmente já não irá perder, e aquilo que não adquiriu provavelmente já não irá adquirir. Há sempre a esperança de que até lá surja qualquer coisa de tão milagroso como a vacina da tuberculose foi. E mesmo que não seja para o meu filho, que seja para todos aqueles que hão de vir. Tornar-me-ia muito mais feliz saber que as pessoas não têm que passar por isto.

Foi um grande sofrimento? Ainda é?
Sim, estaria a mentir se dissesse que não.

Fonte: DN por indicação de LIvresco